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Reserva celebra dia do índio com vivência para estudantes

Foto: Beto Vieira
Antes da aula sobre a cultura indígena, coordenadores e naturalistas do Centro de Educação ao Ar Livre da Reserva Volta Velha, pintam os rostos dos professores e dos pais dos estudantes. Em seguida é a vez das crianças da Escola  Monteiro Lobato e Ayrtnon Senna, ambas da rede municipal de ensino de Itapoá,  com ajuda dos próprios educadores. A garotada se diverte. Os motivos lembram espinhas de peixe e são especiais para festas. Todos prontos para entrar no clima da vivência, enfileirados seguem para dentro da Oca, construída em 2003 na unidade de conservação para ações educativas. O modelo é igual às existentes nas aldeias das tribos dos índios Waurás e Trumai, no Alto Xingu, no Mato Grosso. Foi erguida pelo anfitrião da tarde, o índio Yawaritsawa, mais conhecido como Yawa, com ajuda de seu pai que veio lá do Centro-oeste do País para ajudar na obra. Em v olta de uma fogueira,  repetem em “coro”  a frase que aprenderam com o coordenador do programa de educação ambiental, Juarez Michelotti, minutos antes de entrar no local : “ Nika há wan”, que significa, estamos aqui. È um aviso da chegada do novo público para o índio professor. 

 

Foto: Beto Vieira
Neste momento Yawa entra  com costas,  pernas e peito pintados com urucum. Os motivos lembram uma cobra sucurí. No pescoço carrega colar, um cocar na cabeça, uma saia de palha,  faixa na cintura e acessórios nos braços. No tornozelo um chocalho feito com sementes de pequí. O colorido e o idioma envolvem a todos concentrados em cada palavra do índigena. O anfitrião diz na sua língua pátria, o trumai : He le in wan ami chi: kale?  Nikadeha chi, ou seja, Como vocês falam assim? Eu já estou aqui.

Yawa, fez sua apresentação toda em trumai, depois repetiu tudo o que disse em português. Sua origem são duas etnias, os trumai por parte de mãe e os waurás por parte de pai. “Falei na minha língua primeiramente para vocês terem uma noção sobre o meu idioma e depois sobre a cultura do meu povo desde os tempos remotos até os dias atuais”, explica o indígena, professor de educação ambiental.

Durante duas horas contou estórias  e lendas xinguanas, falou da rotina na vida lá na aldeia. Começou explicando como os indígenas recebem as pessoas e deu uma verdadeira aula de boas maneiras. “Quando recebemos visitantes, sempre oferecemos algo para comerem e beberem, como um mingau preparado com o polvilho da mandioca, peixe assado ou beijú ( tapioca).  A gente sempre pensa que a pessoa  pode estar com fome ou sede”, ensina.

 

Foto: Beto Vieira
Alimentação na aldeia

Aproveitou o assunto para falar da alimentação dos índios, cuja base é o peixe e o beijú. O peixe é assado em cima de um girau, um quadrado feito com quatro forquilhas e uma grelha de madeiras. “  O alimento da caça é muito forte para nosso organismo, então procuramos evitar, embora vez outra, comemos jacutinga, uma espécie de galo do mato, mas estamos matando cada vez menos dessas aves porque senão  um dia  vai acabar”, justifica. No verão, chove muito então tem pouco peixe, a nossa opção é comer de carne de animais e insetos. As formigas, gafanhotos e marimbondos são torrados na panela de barro, sempre acompanhados de beiju ( tapioca).

Yawa, com apoio dos naturalistas, serve beiju com motap, um pirão preparado  com  peixe cozido sem espinha e massa de polvilho de mandioca, para os estudantes, professores e pais de alunos. Mas antes, o índio  mostra como se come sem uso de pratos e talheres. Cada um tira um pedaço de beiju coloca um pouco de motap e cima e come.  

Alguns não gostaram muito, fizeram cara feia e disseram que o beiju não tem sabor de nada, é sem graça,  mas a maioria aprovou a refeição.  A aula de culinária das tribos do Xingu continua, só que agora o tema é o tempero. Bem diferente do nosso sal marinho, principalmente a core a origem, o sal utilizado por eles é cinzento,  retirado de uma planta chamada aguapé. As folhas são cozidas por 48 horas, só depois, o pó é filtrado e torna-se o sal para temperar a comida.

O lema do programa de educação ambiental desenvolvido na reserva  é  vivenciar para aprender a valorizar, amar e respeitar as pessoas e a natureza. “ A gente só cuida daquilo que ama de verdade e, para amar precisa conhecer”,ensina a diretora operacional da Reserva Volta Velha, Ana Maria Machado

È assim em todas as vivências e não foi diferente na índigena. Todos foram convidados a  experimentar um pouquinho de tudo do sal à  música e a dança. A aula na oca aguça a curiosidade da garotada e não páram de surgir perguntas. Yawa responde a todos com muita calma e serenidade. O som emitido pela chocalho no tornozelo é feito com semente de pequí que também serve de repelente. As tribos xinguanas costumam celebrar  na época da colheita da fruta com a Festa do Papagaio. “ É para que no próximo ano tenhamos abundância de pequí”,explica.

 

E é justamente com essa dança tradicional que a  atividade é encerrada. Um ritual infantil preparado especialmente para celebrar o dia do índio.  As crianças dançam e cantam  em trumai,  ao som de  um instrumento musical ( um chocalho) feito de cabaça e sementes, junto com o índio professor , que já está no mundo virtual. Ele tem messenger, orkut, gosta de dançar música eletrônica e pop rock, mas não perdeu sua essência. Preserva a cultura e tradições de seu povo mesmo longe de sua tribo e,  ainda ensina aos estudantes, a importância de preservar os recursos naturais para garantir a sobrevivência das futuras gerações. 

 

 Integração da educaçao ambiental e valores sociais é diferencial

Os instrumentos de caça e a musicalidade chamaram atenção da platéia. “ Gosto das flechas e da música. Foi a primeira vez que cantei na língua deles, comemora Egon Tadeu de 5 anos. A atividade revelou quanto é importante respeitar a diversidade “ Foi bom porque descobri coisas novas que não conhecia, só sabia pelos livros. Descobrí que índío é gente como a gente, só que vive de forma diferente.”, diz Leci Lemos, 12 anos.

A vivência termina e o aprendizado foi assimilado. “  Aprendí que morar na mata é bem melhor que na cidade grande, aqui não tem carro , não tem moto, não tem poluição e a natureza é preservada”, diz Guilherme Machado, 11 anos, aluno da sexta série da Escola Municipal de Ensino Fundamental Ayton Senna.

Pais e professores também saíram da oca sensibilizados com a cultura indígena e a importância da preservação ambiental. “ A mata é maravilhosa e o indígena no Brasil foi a primeira civilização que existiu, antes mesmo dos portugueses aportarem aqui. Temos de respeitá-los, assim como o meio ambiente. Foi uma experiência singular, teve muita consistência e quem está na cidade não sabe quanto está perdendo por não aprender com os índios a conviver em harmonia com os animais, florestas, ouvir o canto dos pássaros. É melhor do que eu imaginava”, afirma Rosana Chivratto, neta de uma índia. Aprender essa cultura é uma lição de vida para quem não mora aqui, complementa a filha Larissa Chivratto.

O pequeno Lucas Nascimento do alto de seus cinco anos gostou da cultura xinguana e diz todo sorridente. “ É bom ser índio, dançar como ele e fazer fogueira”.

 

Resultados na escola e em casa  

Os educadores revelam que essa atividade é importante porque possibilita contato direto entre  crianças e a cultura indígena, conhecida na sala de aula apenas na teoria. “ Os estudantes levam o que ouvem aqui, o que o índio fala, como se veste,  para a escola. Comentam com os colegas e, em  casa com a família,ou seja,  são multiplicadores das informações. Os pais contam que por causa do índio, os filhos não esquecem da reserva, chegam querendo dançar igual ao Yawa, ficam mais calmos e solidários e se  preocupam mais em cooperar, contribuir”, revela a professora de educação infantil da Escola Monteiro Lobato, Virgínia Ricci.

Mas o trabalho não pára por ai, é integrado com o currículo formal escolar de ciências naturais. Antes de participarem da vivência, a educadora trabalha em sala de aula a origem dos índios, como vivem, a sua influência na nossa cultura. Mostra também as duas realidades distintas dos índios que vivem atualmente nos centros urbanos e os que vivem nas aldeias na mata  Segundo a professora, Virgínia, no primeiro dia de aula após a atividade, pede para a garotada desenhar o que viu na reserva volta velha. “É uma forma de avaliar o que eles absorveram de informação”, explica.

 

 A vivência indígena faz parte do Programa de Educação ao Ar Livre da Reserva Volta Velha, que inclui ainda como ferramentas de ensino: trilhas temáticas,fauna e flora da mata atlântica, rochas e solos da planície costeira, estação meteorológica, sítio arqueológico, e canoagem. A metodologia inspirada no Glen Helen Education Center, em Ohio, nos Estados Unidos é resultado de estágio do engenheiro florestal Juarez Michelotti, quando ainda era universitário e acabou estabelecendo uma parceira com a instituição reconhecida mundialmente em função dos 50 anos de  experiência em educação ao ar livre para implantar o modelo de estrutura pedagógica na Reserva Volta Velha.    

O projeto é apoiado pelo governo do Estado por meio do Fundo de Incentivo ao Turismo ( Funturismo), conta com gestão da Associação de Defesa e Educação Ambiental ( ADEA) e patrocínio das empresas Marisol e Arroz Urbano de Jaraguá do Sul, Incasa de Joinville e Tecon SC, de Itapoá. 

 

Foto: Beto Vieira

 

A Reserva – refúgio de fauna e flora da mata atlântica

 

A Volta Velha é uma reserva particular de patrimônio natural ( RPPN) com 1.100 hectares de área ( cerca de 1.200 campos de futebol) remanescente de Mata Atlântica, localizada a cerca de 3km do mar. Criada pelo Ibama em 1992, serve de base para pesquisas, educação e ecoturismo, é considerada pela Unesco, uma área piloto de reserva da biosfera da mata atlãntica para preservação de ecossistemas costeiros do Sul do País.  É a única unidade de conservação localizada no balneário de Itapoá, município que ainda tem grande parte seu território coberto por vegetação nativa.

 

É aberta à visitação pública  e oferece caminhadas nas trilhas, visita à casa de vidro no meio da floresta, sambaqui, estação meteorológica e passeios de barco pelo rio Saí-Mirim. Em duas décadas de estudos ecológicos, envolvendo a floresta, mamíferos e aves, a RPPN Volta Velha reúne um dos maiores acervos de conhecimentos científicos das planícies costeiras do País, organizado através de convênios de pesquisas, desenvolvidas com diversas instituições, entre elas, Universidade Federal do Paraná, Universidade Estadual de Londrina, Univille e a Antioch University e a South Florida University, dos Estados Unidos.


Fonte: Reserva Volta Velha

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